quinta-feira, 13 de abril de 2017

Francisco Geraldes - 15 minutos para tirar as dúvidas



Posso estar muito enganado mas Francisco Geraldes não vai precisar de tempo nenhum para se afirmar como um dos melhores médios portugueses da atualidade e com um reconhecimento internacional a curto prazo, desde que os minutos em campo aumentem exponencialmente. 


Desde o jogo em Moreira contra o Porto, passando pelo jogo da final da Taça da Liga contra o Benfica até aos 15 minutos que fez pelo Sporting contra o Boavista na última jornada, a minha análise é que “Chico” Geraldes tem jogo da cabeça até aos dois pés, com um conhecimento do mesmo que não tem em conta a sua posição específica em campo mas sim aquilo que o jogo pede em cada momento. 

Imagem pesquisa www.google.pt


E esta análise foi claramente marcada pelos 15 minutos contra o Boavista. Entre outras ações/comportamentos, o que mais marcou o meu elogio a Geraldes foi:

- A capacidade de perceção do espaço envolvente antes de a bola chegar aos pés.

- Perceção da zona onde se encontra e o risco maior ou menor associado a essa zona.

- Perceção dos momentos de aceleração ou de acalmar o ritmo de jogo.

- Perceção se é mais eficaz para a equipa acelerar o ritmo de jogo através de passe ou através de condução.

- Pensa muito bem e executa na hora, e quem executa qualquer gesto técnico com os dois pés à velocidade que quer está claramente em vantagem.

- O seu comportamento sem bola no centro do jogo (zona próxima da bola) tem uma qualidade de decisão absolutamente fantástica. Desmarcação para a zona livre, perceciona que a zona livre foi ocupada pelo adversário trava o movimento e procura outra linha de passe, não se dá uma única vez à marcação procurando a melhor linha de passe para ter mais tempo e mais espaço de execução. 

- A agressividade/intensidade com que realiza estas ações mantendo-se consciente daquilo que o jogo está a pedir.

Francisco Geraldes parece ter a base do trabalho de formação do Barcelona associado à liberdade e criatividade da formação do Sporting associando uma personalidade com ideias bem vincadas, vencedora e onde o treinador tem que saber mais do que ele para o convencer! E não é fácil saber tanto de jogo como o miúdo…

Por último, este é o tipo de jogador formado sem ser formatado no qual eu me revejo inteiramente!

(Vídeos)



Cláudio Costa

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Treino Psicológico no Futebol – do Treino à Competição!



No futebol, a reflexão sobre o jogo e o treino deve ser uma constante nas equipas técnicas, no sentido de promovermos a melhoria do rendimento individual e coletivo das suas equipas. No entanto, quantas vezes após uma derrota perguntamos o seguinte: Como é possível, depois de uma semana de trabalho fantástica, em que a equipa preparou tudo ao pormenor, a equipa ter dado aquela resposta negativa na competição? Ou seja, parece que não existe explicação para o sucedido porque a equipa tinha um plano de jogo treinado ao pormenor e na competição parece que tudo foi esquecido.

Do meu ponto de vista, a razão principal está na pouca preocupação dado ao trabalho psicológico no planeamento e operacionalização do treino comparativamente com as dimensões tática, técnica e física, porque o cérebro tal como o músculo tem de ser preparado em treino para a competição. E esta pouca preocupação tem a ver sobretudo com a pouca interação entre a supra-dimensão tática e a dimensão psicológica. De uma forma simples e objetiva vou descrever alguns pontos onde esta problemática é evidente na relação tática/psicologia:

1 – A implementação de uma ideia/modelo de jogo deve começar na explicação desse modelo por parte do treinador, deve construir-se com a prática através de exercícios de treino e deve acabar com a explicação e aplicação desse modelo de jogo através dos jogadores. E a ideia passa por ao longo do tempo, das unidades de treino, da época desportiva, os treinadores expliquem menos e os jogadores expliquem mais a ideia/modelo de jogo da sua equipa. A promoção da autonomia do jogador em treino é uma variável psicológica importantíssima em competição, já que permite encontrar respostas sem a intervenção direta do treinador. O problema é que o treinador gosta de mostrar que sabe tudo dando respostas, gosta de controlar tudo mas quando chega um momento de descontrolo na competição, como um golo ou uma surpresa tática do adversário, não será ele que tem de responder mas sim os jogadores, por isso, o treinador deve preocupar-se em ao longo do tempo procurar tornar-se desnecessário, já que é um ótimo sinal de que os jogadores estão a encaixar o seu modelo de jogo. E esqueçam que não vão perder a liderança do grupo, bem pelo contrário!

2 – O Foco e a Concentração são variáveis psicológicas importantíssimas mas ao mesmo tempo muito complexas de desenvolver no futebol e a maior dificuldade é a absorção de uma forma mais mental do modelo de jogo da equipa. Concentração e foco não é “concentra-te e já está”, são variáveis treináveis e claramente o trabalho psicológico como a visualização mental, auto diálogo e questionamento podem ser excelentes práticas para que a interiorização mental das práticas construídas no treino sejam mais significativas e assim no contexto de jogo e competição, os atletas estejam mais preparados.

3 – O controlo da ansiedade e do stress competitivo faz-se na prática com a correção do erro em treino porque o erro na competição é claramente um dos maiores fatores de aumento da ansiedade e do stress. O atleta tem que errar no processo de treino e testar soluções que evitem esse mesmo erro, levando a que os atletas tenham uma adaptabilidade maior à possibilidade de errar na competição, provocando diminuição da ansiedade e stress, e consequentemente um aumento do rendimento. 

4 – Equipas competitivas treinam maioritariamente de forma competitiva, seja num contexto com golos seja num contexto de valorização de outros objetivos de treino. Equipas que não lidam bem com o resultado negativo na competição devem preparar-se com contextos de treino que promovam a melhoria desse aspeto. São apenas exemplos para que haja perceção que o ambiente de competição pode ser estimulado dentro da própria operacionalização do treino e que a dimensão psicológica deve ter objetivos concretos no treino. Com isso a adaptação à realidade competitiva será com certeza muito maior. 


Concluindo, existem treinadores muito competentes ao nível da periodização e construção tatico-técnica do treino, ao nível do seu controlo fisiológico, ou seja a interagirem muito bem a dimensão tática, técnica e física, mas depois muitas vezes apontam o dedo indicador na direção da cabeça quando as coisas não correm tão bem nos jogos. Porque fazem esse gesto? Obviamente porque tudo a mente, o cérebro, a dimensão psicológica é um aspeto fulcral na obtenção do sucesso e na preparação para o rendimento tendo obrigatoriamente que ser preocupação no planeamento e operacionalização do processo de treino e não apenas nas tradicionais palestras que antecedem a competição. 




Cláudio Costa

segunda-feira, 6 de março de 2017

Hernâni x Esgaio e a Tomada de Decisão coletiva e individual em organização defensiva




Quem assistiu ontem ao Sporting-Guimarães do campeonato português percebeu que toda a dinâmica ofensiva de sucesso do Vitória de Guimarães esteve principalmente na saída em ataque rápido pelo seu lado direito, potenciando ao máximo o duelo entre Esgaio e Hernâni.

O que falhou na organização de jogo do Sporting contra o Vitória, principalmente ao nível da sua organização defensiva coletiva, setorial e individual?

Estando a falar de alto rendimento e futebol sénior, vou partilhar a minha opinião do coletivo para o individual, da organização coletiva no seu todo para a organização defensiva.

Primeiro ponto, o Sporting este ano é uma equipa com uma transição defensiva menos agressiva, menos preparada para a perda, mais lenta, em virtude da saída de Slimani, da quebra de rendimento de alguns jogadores, e principalmente na incapacidade do Sporting em gerir ritmos de jogo com bola, onde João Mário, Bryan Ruiz, Adrien e William eram as referências principais da alternância de um jogo mais intenso ou mais pausado em ataque. Este ano nos jogos do Sporting, o jogo “parte” mais facilmente, permitindo a equipas de contra-ataque, ataque rápido criarem mais oportunidades de golo, como foi o caso do Vitória no jogo de ontem.

Segundo aspeto, a proteção e cobertura da linha defensiva ao Esgaio foi horrível, com distâncias enormes entre jogadores que compunham a linha defensiva e um controlo da profundidade muito fraco com GR incluído. Sabendo previamente através da análise do adversário, a equipa tinha que estar muito mais preparada para os pontos fortes do adversário, e a velocidade de Hernâni associada à definição/criatividade de Hurtado foram e são claramente um desses pontos fortes em organização ofensiva. Distâncias de cobertura defensiva do central ao Esgaio, acompanhamento ao movimento de Marega para o setor médio e distância entre jogadores da linha defensiva foram claramente os erros graves de organização defensiva coletiva e setorial.



Terceiro e último ponto, Esgaio é rápido mas o Hernâni é rapidíssimo com e sem bola, associando à bola capacidade técnica! Isto criou imensas dúvidas na tomada decisão defensiva do Ricardo Esgaio, se chegava perto do Hernâni, este entrava nas costas, se fechava por dentro ele arrancava com ou sem bola pelo corredor lateral, tornando-se complicado decidir para um defesa contra a qualidade do adversário. Como treinadores, como preparavam o vosso atleta? 

Manter as bases dos princípios específicos e fundamentais a defender seriam a minha mensagem principal. Defender entre a bola e a baliza, estabelecendo como prioritário fechar corredor central mantendo uma distância correta para o adversário direto e focar-se na técnica específica do princípio da contenção.

Na minha opinião, do ponto de vista da análise individual, a técnica específica de contenção foi o principal problema no insucesso do Esgaio, principalmente na lateralização dos apoios, porque mudar de direção à esquerda é diferente de mudar de direção à direita, jogar a lateral esquerdo é diferente de jogar a lateral direito. 

Parece igual, mas em alto rendimento é diferente, porque as limitações que não se notam nas competições na formação saltam à vista no alto rendimento. 

Daí a importância da especificidade, da continuação, em menor volume obviamente, do trabalho que supostamente é feito no processo formativo para melhorar o princípio específico de contenção ou a bilateralidade do gesto, sabendo claramente que corrigir os erros de organização coletiva assumem a maior importância no processo de treino de uma equipa profissional.

O sucesso acontece quando a oportunidade está de mãos dadas com a preparação, e o Sporting não estava preparado do ponto de vista defensivo para o principais comportamentos do Guimarães em organização ofensiva o que na minha humilde opinião é ridículo numa equipa profissional com todo o tempo do mundo para planear e treinar a competição! 

P.S. Não fazia sentido Hernâni no plantel do Porto desta época com Nuno Espirito Santo? Quando jogavam para trás e para o lado com Lopetegui fazia imenso sentido….



Cláudio Costa

sexta-feira, 3 de março de 2017

Valor profissional Vs Valor sócio-pedagógico do treinador? Goleada dos visitantes que obrigaram à rescisão do contrato do treinador!

O grande objetivo do PASSE DE RUTURA como blog é tentar ajudar os treinadores, e este primeiro texto de regresso, não será para ajudar no trabalho em treino nem no trabalho em jogo, mas sim para ajudar a defender uma das "profissões" portuguesas de maior reconhecimento internacional, e que vocês os leitores vão perceber com este texto, qual é o reconhecimento nacional dado à "profissão" treinador de futebol, e no final deste texto gostaria de ler as vossas opiniões que pode ser apenas numa palavra! Para bem da nossa classe...

Este primeiro texto surgiu da reflexão conjunta entre dois treinadores, eu e o Diogo Costa, que após uma aula de mestrado em Alto Rendimento na FADEUP, vínhamos na viagem de regresso à nossa cidade, Coimbra, discutindo os temas abordados nas aulas e tentando identificar um tema para realizar um trabalho para a disciplina de gestão e administração desportiva. Ao ver os euros a "voar" em portagens, gasóleo, propinas, dei por mim a pensar e a perguntar ao Diogo: Quanto ganhamos na "profissão" treinador? Qual é o nosso contrato de trabalho? Quantas horas trabalhamos por semana em planeamento, treinos, jogos e deslocações? Depois como anteriormente tínhamos frequentado a disciplina de sociologia do desporto, onde os valores maiores e primordiais do desporto são abordados, como a igualdade de condições de competir, a ética, a construção de uma personalidade quase perfeita com os valores do desporto, questionei-me: Sou um treinador ético? O que pensam os meus atletas de mim? E os pais dos atletas, o que pensam de mim? Tive ou tenho uma influência positiva nos meus atletas/adolescentes/homens? Os treinadores e o desporto são importantes no desenvolvimento humano e social dos atletas? E o desporto promove a igualdade profissional entre treinadores, ou pelo menos condições justas que me permitam competir com os meus colegas de profissão e adversários?

Depois desta reflexão conjunta entre dois treinadores que não se limitam a olhar para o seu umbigo, o tema surgiu: Relação entre valor profissional e valor humano-social do treinador. A relação é direta ou inversamente proporcional?


Posto isto, através da plataforma Google Docs, criámos três questionários: Primeiro para os treinadores (57) onde avaliamos salário mensal, tipo de contrato, nº horas trabalho semanal (treinos, jogos, planeamento, deslocações, reuniões) e relação salário / horas de trabalho; o segundo e terceiro questionário foram para os encarregados de educação (49) e atletas (75) respetivamente, onde avaliamos a influência da prática desportiva e do treinador no desenvolvimento social e humano dos atletas bem como na construção da própria personalidade.

Por tópicos, apresento-vos os principais resultados:

Valor profissional

- 77% dos treinadores inquiridos não têm qualquer contrato com o clube ou entidade empregadora;

- 17,5% tem contrato como trabalhador independente e apenas 3,5% tem contrato full-time; 

- Quase metade dos treinadores inquiridos (49%) recebe um vencimento entre 76-150€ e 80,8% dos treinadores afirmam auferir menos de 300€;

- 3,5% não recebem qualquer vencimento; 

- Relativamente ao número de horas de trabalho semanal, os resultados tendem para um equilíbrio, no entanto a classe entre as [11-20h] apresenta um predomínio comparativamente com as outras, com cerca de 39% das respostas;

- Observando os valores que podem ser calculados no que respeita ao vencimento por hora de trabalho, constatamos que estes valores situam-se entre 0,63€/hora e 11,36€/hora, e na classe de vencimentos mais representativa da amostra (76-150€), existem 20 treinadores em 57 que recebem entre 0,63€/hora e 3,41€/hora.

Valor humano-social pela prática desportiva federada e pelo treinador na perspetiva dos atletas

- 94% dos atletas consideram a prática desportiva muito importante e extremamente importante no seu desenvolvimento humano e social; 

- 88% dos jogadores afirmaram que a prática desportiva foi muito importante e extremamente importante na criação de amizades; 

- 90% dos futebolistas relataram que o treinador foi muito importante e extremamente importante na implementação de regras, disciplina e hábitos importantes; 

- Para 85% dos desportistas o treinador foi muito importante e extremamente importante no desenvolvimento da sua personalidade;

- 78% dos futebolistas afirmam que o treinador, no global, teve uma influência muito positiva e extremamente positiva no seu desenvolvimento social e humano.

Valor humano-social pela prática desportiva federada e pelo treinador na perspetiva dos encarregados de educação

- 98% dos pais consideram muito importante e extremamente importante a influência da prática desportiva no desenvolvimento social e humano do seu educando;

- 96% dos encarregados de educação afirmam que a prática desportiva foi muito importante e extremamente importante na criação de amizades; 

- 94% relatam que o treinador foi muito influente e extremamente influente na implementação de regras, disciplina e criação de hábitos do seu educando; 

- Para 82% dos pais o treinador foi muito importante e extremamente importante na construção da personalidade do seu educando;

- 75% dos encarregados de educação consideraram que o treinador teve uma influência muito positiva e extremamente positiva no desenvolvimento social e humano do seu educando;

- 22% consideraram importante a influência do treinador, no entanto, 2% dos pais afirmaram que a influência do treinador foi pouco positiva.

http://observador.pt/2016/12/30/cristiano-ronaldo-rejeitou-proposta-de-100-milhoes-por-ano-da-china/

Enquanto escrevia os resultados dei por mim num sorriso sarcástico, a pensar nos milhões que relata a imagem acima e a pensar que 71,9% dos treinadores inquiridos são licenciados em ciências do desporto, que se especializaram em futebol na sua maioria, e que investiram na sua formação para atingir o seu grande objetivo profissional que não é ser professor de educação física, não é ser instrutor de fitness, mas sim trabalhar nos quadros técnicos de um clube de futebol. Igualdade? Profissão? Estou a escrever um texto de comédia...ou terror!!!

Obviamente que a dimensão da amostra, tendo em conta o universo de treinadores de futebol, de atletas e pais em Portugal não é representativa, mas estes resultados indicam claramente uma tendência para uma relação muito inversa entre valor profissional e aquilo que o treinador pode promover na educação e no comportamento socio-pedagógico das crianças e dos adolescentes, que se tornará importante na idade adulta, e que claramente é valorizada pelos próprios atletas e pelos seus encarregados de educação, mas que sofre de uma desvalorização, de uma falta de respeito de quem gere o desporto nacional: Governo, Federações, Associações e Clubes.

A questão é, porque é que isto acontece? Porque continuamos nestas condições?  Pessoalmente, vou transmitir-vos a minha opinião.

1º Péssima gestão desportiva do desporto e do futebol em Portugal, porque se existe área com capacidade económico-financeira neste país, essa área é o desporto. Comprovo aquilo que estou a dizer com exemplos. Em Portugal, a desigualdade económico-desportiva está bem presente no futebol. Barros (2006) concluiu que uma das principais razões para a crise desportiva é a sobrevalorização aos três clubes de maior dimensão, Benfica, Porto e Sporting. Isso é claramente comprovado se observarmos por exemplo os valores para a venda dos direitos televisivos que ocorreu recentemente no futebol português, em que o somatório dos três clubes originou um valor de 1372,5 milhões de euros num contrato de 10 a 15 anos com a MEO e NOS, aumentando ainda mais o desequilíbrio para os clubes de média e pequena dimensão (fonte Jornal Expresso – Dezembro 2015). Portanto, o desporto e neste caso o futebol tem grandes recursos financeiros, no entanto o dinheiro está mal distribuído. Se observassem grandes exemplos, como é o caso da venda dos direitos televisivos na Liga Inglesa, onde 50% do valor total por época é repartido pelos 20 clubes da liga, 25% em função dos resultados desportivos e os restantes 25% em função do número de jogos transmitidos, levando neste momento a um grande crescimento económico e aumento da competitividade de todas as equipas inglesas com dois princípios fundamentais do desporto, igualdade de condições e justiça desportiva. 

Esta desigualdade está presente claramente no desporto português e nos treinadores, que é o tema fundamental deste texto, e o maior exemplo disto é o caso de Jorge Jesus que tem um contrato de três anos a receber 6 milhões de euros/época (fonte Diário de Notícias – Junho de 2015). Observem novamente os resultados do nosso estudo e percebam as diferenças.....mais vos digo, se o Sporting retirasse um milhão de euros por época ao Jorge Jesus e investisse esse milhão em todos os treinadores de futebol da sua formação, imaginado que fossem 50 profissionais, estes ganhariam mais 1666 euros por mês!!! São diferenças lastimáveis que com uma gestão desportiva ética, a motivação do treinador de formação não seria chegar rapidamente ao alto rendimento para ganhar dinheiro mas sim realizar um trabalho profissionalmente correcto.

2º A maioria dos treinadores de futebol em Portugal olham muito para o seu umbigo e não fazem aquilo que eu e o Diogo nos preocupamos em fazer com este trabalho, esquecendo que acima de tudo o talento chega ao futebol sénior com uma excelência desportiva que depende das condições que terá na sua formação, e que essa excelência é potencializada ao máximo se os treinadores forem competentes mas também se estes andarem profissionalmente e financeiramente estáveis. Por muita paixão que exista, por muito que continuem a aparecer talentos, a tendência é que essa paixão e o talento diminua se mantivermos este comportamento de "assobiar para o lado" percebendo que as condições de trabalho são amadoras, são claramente não profissionais, e que os treinadores não têm ordem dos treinadores para nos defender. Queremos equipas unidas, com espírito mas isso não acontece entre a classe de treinadores.

3º Dirigentes dos clubes tem que obrigatoriamente aumentar a valorização profissional e financeira dos técnicos competentes criando grupos de trabalho reduzidos com acumulação de funções técnicas no clube, promovendo condições de trabalho sérias e altamente profissionais aos treinadores. O princípio devia ser: qualidade profissional em detrimento de quantidade amadora! Para além disso os clubes ainda não perceberam que o investimento na formação desportiva é o caminho certo para o próprio crescimento desportivo e económico.

Concluindo, numa altura em que o treinador de futebol tem um reconhecimento internacional elevado, o reconhecimento nacional é medíocre, principalmente na sua valorização profissional e económica. No entanto, gostaria de terminar afirmando que esta análise é muito redutora da má gestão do desporto nacional, porque não comparamos valor profissional e económico entre modalidades desportivas, entre desporto de recreação, formação/especialização e alto rendimento dentro da mesma modalidade. As entidades governamentais, federações, associações e clubes ainda não perceberam a importância do investimento desportivo, nos quadros técnicos, na igualdade de investimento nas diferentes fases de desenvolvimento do desporto (recreação, formação, rendimento) para a evolução do desporto nacional, e ainda não perceberam o impacto sócio-pedagógico que a prática desportiva pode ter nos futuros adultos portugueses. Se perguntarem aos pais e aos atletas talvez percebam!

Esta é a minha paixão, esta é a minha profissão, seja na recreação, na formação ou no alto rendimento mas...

Se estás a pensar em ser treinador pensa duas vezes...acreditando que esta realidade vai mudar com as tuas convicções!!!

Um abraço companheiros neste regresso do blog.

Cláudio Costa
      (Colaboração Diogo Costa)













sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Jogo Individual vs Jogo Coletivo


Comparando individualmente os 11 jogadores titulares do Barcelona e do Real Madrid, ou até mesmo o plantel, facilmente se verifica um equilíbrio: para uns o Barça tem os melhores, para outros tem o Real. Na minha opinião ambas tem os melhores do mundo, uns têm ideias de jogo comuns, outros nem por isso!

Comparando coletivamente: domínio absoluto do Barça… Real Madrid 0-4 Barcelona!

Como é possível haver tanta diferença em termos de qualidade de jogo, de domínio, entre duas equipas que em termos individuais são tão próximas?

“O todo é maior do que a simples soma das suas partes” citando Aristóteles.


A expressão acima transcrita em muito se relaciona com a filosofia/ideia de jogo/modelo do Barça. Jamais um jogador vencerá uma equipa. 

Ter os melhores ajuda, mas não é tudo. A grande diferença está na forma como todos os jogadores do Barça percebem a filosofia/ideia de jogo/modelo e acreditam que aquela é a melhor forma para ganhar, refletindo a existência de uma identidade coletiva. 

Como é que a equipa percebe e interpreta tão bem as suas ideias? Na minha opinião, entre outros fatores, existem dois elementos preponderantes: o processo de treino e a cultura de clube!

No último clássico entre Real Madrid e Barcelona, o primeiro golo do jogo, marcado por Suarez, representa na perfeição o jogo coletivo a que me refiro. A capacidade que a equipa tem em oscilar o ritmo de jogo através do passe é notável, num momento quase que adormece, noutro parece que decidem à velocidade da luz. 

Vídeo (Golo 0-1 1'19'' até 1'36'')


Comentário ao vídeo:
Sergi Roberto – Olhar antes de receber, jogar para quem está de frente, jogar entre linhas e entre adversários, toque, tomada de decisão. Incrível como emergem da cantera estes craques à Barcelona. Não é um craque qualquer. É à Barcelona, com comportamentos/perceção do jogo dentro da linha de Iniesta, Busquets e Xavi. Vejam como joga sem bola quando a equipa a tem! 

Iniesta “com bola um passo atrás” campo grande. Era para receber a bola?
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Os pormenores que rapidamente se tornam “promaiores”, sub-principios que são de uma importância crucial para este jogar. Estes comportamentos, fruto do treino e da crença que há no jogar desta forma, tornam-se num hábito motor, emergindo de forma natural no decorrer do jogo, quase como se de atos involuntários se tratassem. 

A oscilação de ritmo/velocidade de jogo que o Barça impõe exige perceção do que é que o jogo naquele momento pede, e para tal tem que ter em consideração um conjunto de fatores tais como a zona da bola, o posicionamento da equipa adversária, o posicionamento da própria equipa. A grande questão parece-me a capacidade que todos ou quase todos os jogadores têm em jogar sem bola, quando a equipa a tem na posse. Jogar em função do colega, não olhar só a bola. Muitas vezes é visível a mobilidade que alguns jogadores dão, não tendo por objetivo receber a bola, mas sim abrir espaço para alguém entrar, ou até para o portador progredir. Isto tem muito de sentido coletivo, tal como o passe para quem está de frente para o jogo. Há respeito pelas ideias, pelos movimentos dos colegas; não há espaço para egos e individualismos. 


O plano de jogo de Rafa Benítez para o Clássico assentou claramente no jogo individual, colocando os craques todos, à espera que estes - que do ponto de vista individual são igualmente monstros - resolvam. A verdade é que normalmente funciona, face à diferença de “armas”. No entanto, com equipas similares fica mais difícil esperar que os jogadores “sozinhos” ganhem o jogo!

Tiago Coelho

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Sporting Vs Benfica - A Minha Opinião Tática do Derbi

O último Sporting – Benfica foi sem dúvida um jogo de emoções fortes, equilibrado e onde a estratégia/plano antes e durante o jogo foi sem dúvida muito importante para este jogo extremamente competitivo.

Neste sentido resolvi fazer a minha interpretação tática ao dérbi.

Em primeiro lugar acho que Rui Vitória apresentou o melhor plano de jogo dos três jogos que já realizou contra o Sporting, ao colocar um meio-campo de três jogadores com maior capacidade em ter a bola (Samaris, Talisca e Gaitan) e um deles com grande capacidade para dar mobilidade ao setor médio (Gaitan). Equilibrou as forças no meio campo e deu-lhe capacidade de circulação de bola. O facto de ter sido dominado no setor médio no jogo para o campeonato, onde o Sporting provocou grande superioridade nessa zona e onde para mim foi a chave do jogo (André Almeida/Samaris Vs William, Adrien, João Mário, Ruiz, Teo em constante jogo interior), fez com que o treinador alterasse a estrutura/sistema mais usado pelo Benfica este ano. Já o tinha feito na Supertaça e bem, mas para mim não foi com as peças certas (Samaris, Fejsa, Talisca no setor médio = pouca mobilidade e criatividade; Gaitan, Pizzi e Jonas no setor ofensivo = pouca profundidade e pouca largura/velocidade).

Por isso no jogo de Sábado, a mobilidade de Gaitan no centro do terreno em diagonais constantes sobre os corredores laterais e a criação de superioridade no setor médio com Pizzi, provocou grande dificuldade ao meio-campo do Sporting porque deixou William indeciso nos deslocamentos defensivos (acompanhava ou não os deslocamentos variáveis de Gaitan) e obrigou Adrien a esforço redobrado na pressão ao meio-campo do Benfica que conseguiu na primeira parte ter bola, embora após o meio da primeira parte tenha abdicado um pouco disso. Acredito que neste ponto teve a chave do sucesso do Benfica em grande parte da primeira parte. 

Depois para mim existem duas razões para a supremacia do Sporting na segunda parte: a adaptação estrutural do Sporting com o seu treinador a mexer e bem nas peças do puzzle e com a quebra física e mental de alguns jogadores do Benfica com menos tempo de jogo nesta fase da época e que em jogos desta natureza competitiva faz a diferença.

Jesus ao colocar João Mário mais perto de Adrien e William equilibra o meio-campo e ganha na interação destes três comparativamente com Samaris-Talisca-Gaitan, pouco habituados a jogar juntos no setor médio, e ao colocar Gelson perto de Eliseu permite explorar ainda mais uma das maiores limitações do Benfica, com todo o respeito pelo jogador internacional português, que está numa fase menos boa. Esta é a primeira razão que encontro.

Depois, quem diz que os jogadores precisam de descanso enganam-se, porque o grande problema de Vitória foi a quebra física e mental de atletas que têm jogado menos, como Talisca e Pizzi, bem como o desgaste também físico e mental de Gaitan que raramente joga naquela posição (podes estar muito bem preparado para correr mas se te colocarem a nadar tu vais sentir cansaço/dor muscular no dia a seguir; na alteração posicional a mesma coisa embora em menor preponderância) e que não suportaram o maior ritmo de Adrien, William e João Mário, jogadores com muitos minutos nas pernas. Portanto, se equilibraram o setor médio e ainda por cima estavam com maior ritmo competitivo, parece-me evidente que a supremacia do Sporting iria acontecer. E aí Vitória na minha opinião mexeu mal, ao colocar André Almeida no lugar de Pizzi, voltando a colocar Gaitan numa ala, porque para além da quebra física da equipa, ainda lhe deu uma maior quebra mental ao dar um sinal de medo numa eliminatória “mata-mata”. Eu teria substituído Eliseu por André Almeida para controlar Gelson e ao tirar Pizzi colocaria Carcela (bons jogos sempre que jogou) dando um sinal da minha vontade de ganhar o jogo (“mata-mata”!!!). Obviamente que a frio tudo será sempre mais fácil e obviamente Rui Vitória melhor que ninguém sabe porque optou assim. 

Em conclusão, o Sporting ganha o jogo pelo plano de jogo de Jorge Jesus durante o jogo com a alteração posicional de João Mário e entrada de Gelson, pela dimensão física e mental de alguns jogadores do Benfica que não tiveram uma adaptação antecipada a um jogo desta intensidade física, tática e mental (os grandes jogos são preparados muito atrás da semana deste, do ponto de vista tático, físico e mental!) porque nem Pizzi, nem Talisca, nem Gaitan (do ponto de vista posicional) estavam preparados para esta competitividade e por último Rui Vitória na minha opinião enfraqueceu mentalmente a sua equipa com as substituições, porque em jogos a eliminar ganhas ou estás fora e o treinador na minha opinião colocou a derrota na mente dos jogadores!

Concordam com a opinião?

Têm outra leitura/interpretação do jogo?

Para terminar, reforço que esta temática do blog (Treinador de Bancada) é uma interpretação vista de fora, como um verdadeiro treinador de bancada, pelo que é uma opinião sem conhecimento do que se passa internamente nas duas equipas.

Cláudio Costa

domingo, 22 de novembro de 2015

O Treinador de Formação não é SÓ um Treinador

Um treinador de jovens tem de ser completamente diferente daqueles que aparecem na televisão. Se os educadores de infância não podem ser professores do 1º ciclo, professores do 1º ciclo que não podem ser educadores de infância nem do 2º ciclo e por aí em diante, porque é que os treinadores sub-7 e sub-8 podem ser treinadores dos sub-19? E pior… Porque é que os treinadores dos sub-11 que querem ser treinadores dos Seniores vão para treinadores de sub-11?


O treinador de crianças deve especializar-se naquilo que faz, ser recompensado por isso e fazê-lo da melhor forma possível.

O problema é que o desporto e a formação das nossas crianças através dele é completamente descorada. Apesar do desporto estar na moda, o papel dele na formação das pessoas está completamente posto de parte. No entanto, isso não deve ser desculpa para nós, treinadores, deixarmos de ser bons. Bons treinadores e bons FORMADORES.

Um treinador de formação tem de transmitir bons valores e boas crenças. O querer ganhar a todo o custo e transmitir isso para os atletas parece, aparentemente, inofensivo. É só um desporto, num clube com poucas ambições, ninguém vai reparar. O grande problema é que estes jovens estão numa idade bastante sensível, estão a formar o seu caráter e a sua hierarquia de valores. No imediato, estas ações dos treinadores não parecem mudar nada mas quem serão esses meninos no futuro? Será que vão ser jogadores de futebol? Será que vão ser políticos? Será que vão ser donos de uma grande empresa? Será que se se tornarem pessoas demasiado competitivas, que querem ganhar a qualquer custo e que não se importam com o que levam à frente, não serão maus profissionais? Não serão más pessoas? E o Treinador/Formador não tem cota parte nisso?

O treinador de formação tem um papel de grande influência no molde da personalidade destes pequenos. Se é certo que grande parte da personalidade é explicada pela genética, também se sabe que uma boa parte se deve ao ambiente em que as crianças estão inseridas e aos adultos-modelo. E o treinador é um dos adultos-modelo com mais peso. É o que possibilita uma das atividades que a criança mais gosta e que o faz/ou devia fazer evoluir e crescer nessa atividade.

O treinador de formação, ao contrário do treinador de equipas de competição, deve pôr a evolução individual do atleta à frente dos resultados competitivos do clube. Ou seja, dar hipóteses para os que estão menos aptos poderem evoluir e promover os mais aptos a escalões superiores onde possam ter mais competitividade e consequentemente evoluir também; mesmo que isso prejudique os resultados da equipa.

O treinador de formação deve promover a integração. Numa altura em que se fala muito de “bulling”, fenómeno que na minha opinião sempre existiu, é ainda mais necessário que os treinadores promovam uma boa ligação entre todos os seus jogadores. Fazer entender que numa equipa todos temos o mesmo objetivo e que isso nos une, independentemente das nossas diferenças individuais.

Durante o crescimento, especialmente nos escalões onde se costuma dar o salto de crescimento pubertário, existem muitas diferenças maturacionais, jovens muito avançados e outros muito atrasados. O treinador de formação tem que conseguir ver para além dessas diferenças, dar tempo a quem precisa de tempo. Perceber que as limitações que alguns jogadores têm não se devem a falta de qualidade mas sim ao timing de crescimento. E dar estratégias e qualidades a esses meninos para contornar as diferenças físicas.

O treinador tem que ensinar o jogo. Existem princípios e comportamentos que o treinador deve ensinar aos seus jogadores. Eles devem saber jogar e devem entender, interpretar cada momento e reagir em consonância. Para isso o treinador de formação tem de conhecer muito bem o jogo. Como pode um professor de inglês ensinar a língua se não sabe falar corretamente? O treinador deve conhecer o jogo, pensar o jogo, estudar o jogo e tentar estar o mais informado possível para poder ensinar o melhor possível.

O treinador de formação deve ter a noção que o futebol é um jogo. Que os atletas são crianças, que jogam para se divertir. O treinador tem obrigação de não tirar a diversão aos seus jogadores, os jogadores devem adorar o futebol e acima de tudo devem adorar fazer desporto.

O treinador de formação deve preocupar-se com o que os seus jogadores fazem fora do campo, é uma grande referência como já foi dito e pode intervir favoravelmente na consciencialização dos seus atletas. Tanto a nível pessoal como académico, nunca se esquecendo que essas crianças poderão não vir a ser jogadores de futebol profissional e que têm, obrigatoriamente, de ter outra alternativa.

O treinador de formação deve ensinar aos seus atletas bons hábitos alimentares; o que devem comer mais e o que devem evitar; que alimentação devem ter antes e depois do exercício, sublinhar a importância da hidratação. Bem como, alertar para comportamentos menos próprios de atletas, que os podem prejudicar no imediato e no futuro, como hábitos alcoólicos, tabágicos e drogas.

Acima de tudo um treinador de formação tem de ter a consciência que tem o poder de mudar o mundo, pois está a lidar com os homens do futuro. Possíveis políticos, líderes de grandes empresas, pessoas com poder para fazer a diferença. Quando bem ensinados poderão fazer a diferença para o bem, quando mal ensinados…

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Mister o que é o princípio da PROGRESSÃO?

Hoje vou contar-vos uma experiência pela qual passei recentemente num jogo de Sub-12/13. 

Fotografia retirada de www.123rf.com
O campeonato distrital de infantis em Coimbra é pouco competitivo e muitas vezes os campeões de série ou mesmo distritais decidem-se no confronto entre as 2-3 melhores equipas, pelo que quando uma dessas melhores equipas defronta uma equipa mais fraca o resultado é normalmente bastante, e repito bastante desnivelado.

Foi o que aconteceu há pouco tempo num jogo da minha equipa que ao intervalo do jogo vencia o adversário por 10-0 salvo erro. Perante este resultado resolvi alterar o objetivo coletivo em organização defensiva da minha equipa, não porque tive pena do adversário não conseguir jogar mas porque realmente queríamos organizarmos defensivamente mais atrás (Organização Defensiva em bloco mais baixo) para poder melhorar o nosso ataque rápido, que é um dos objetivos nesta fase do planeamento. Portanto, a nossa equipa deu a bola ao adversário no seu meio campo! 

Acontece que fiquei estupefacto ao aperceber-me que o portador da bola do adversário, quando recebia do guarda-redes não conduzia para a frente ou conduzia a passo sem saber o que fazer ao objeto mais importante do jogo! Para além disso, quando havia um pontapé de baliza os dois defesas em vez de colocarem-se o mais á frente possível, colocavam-se junto à linha final, estando os nossos atletas no meio-campo! Revolto-me, não compreendo, não podem haver atletas com 12-13 anos que não sabem praticar, perceber o princípio mais importante do jogo de Futebol a atacar, o princípio da Progressão. São eles os culpados? Será o treinador que começou a orientá-los este ano? Os miúdos não são de certeza.

Porque acontece isto? Porque não existem modelos de ensino do jogo, não existem modelos de ensino que promovam a evolução do jogador, o único objetivo é a autopromoção do treinador que se não luta pela faixa de campeão, não interessa o treino, não interessa a evolução coletiva e individual.

O princípio da progressão é o maior e mais importante princípio do jogo em ataque e deve ser o primeiro a ser ensinado. Começa na bola, na relação “amorosa” com ela nas idades iniciais (5-6-7 anos), ensinando a técnica, depois colocando o adversário com o objetivo de o superar e chegar ao grande objetivo do jogo, o golo, e terminando com ensino dos restantes princípios sempre em associação com este grande princípio, porque tu dás cobertura ofensiva para permitir progressão por outra zona, tu dás mobilidade para receberes numa zona mais à frente no campo (progressão no terreno) e tu dás espaço para permitir que o portador possa progredir na zona onde está.

Mas o que interessa é o 7x7 em miúdos de 7-8-9 anos quando eles mal vêem o colega do lado quanto mais os outros 5, o que interessa é posses de bola com o jogo dos 10 passes sem orientação, sem o maior objetivo do jogo, e o que interessa são circuitos técnicos para entreter onde nem sequer explicam porque é que aquilo é importante para o jogo.

E depois alguns iluminados ainda dizem que a falta de competitividade no distrito é devido ao clube grande da região que recruta os melhores! É muito fácil colocar a culpa nos outros, será sempre mais fácil, por isso eu sempre saúdo os treinadores que no jogo da 2ª volta eu percebo o quanto os atletas evoluíram, o quanto eles melhoraram no conhecimento do jogo independentemente se perderam por mais ou por menos! 

Mister o que é o princípio da Progressão? 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Como criar um modelo de jogo consistente?

Quem gosta de ser treinador de futebol e tem o constante desejo de melhorar deve para além da aprendizagem através dos livros, dos estágios, entre outras formas de aprendizagem, deve também ver muitos jogos de futebol como treinador e não como um simples espetador, já que esta é uma das melhores formas de percecionar novas tendências evolutivas do jogo e assim escolher uma ideia ou aperfeiçoar uma ideia de jogo favorita ou que corresponda às características dos jogadores que orienta.

Por isso, e para começar a falar do tema que questiono no título, quando nós observamos um conjunto de jogos de equipas treinadas por Guardiola, Jorge Jesus ou Lopetegui por exemplo, verificamos que de jogo para jogo, os princípios que sustentam a sua ideia de jogo nos diferentes momentos (atacar, defender, transitar) mantêm-se consistentes e os jogos “fluem” sem grandes oscilações de rendimento de acordo com esses princípios.

Então como chegar a esses modelos consistentes? Porque é que alguns treinadores chegam a esses modelos consistentes e outros não? O que é realmente um modelo de jogo consistente?

Em primeiro lugar, é fundamental uma apresentação teórica e de uma forma simplista das grandes ideias da tua forma de jogar a atacar, defender e nos momentos de perda e recuperação da bola. O uso de frases, vídeos de equipas-modelo, esquemas, etc. parece-me uma excelente forma dos jogadores entenderem aquilo que se pretende para a forma de jogar.

Em segundo lugar, o treinador deve construir um processo de treino planeado para chegares ao tal modelo de jogo consistente. Como construir? Quais os passos?

1- Operacionalização (treinos/exercícios) inicial com incidência total na tua forma de jogar, e nas fases do jogo em que o treinador dá mais importância no seu modelo de jogo, com o objetivo claro de os atletas tomarem consciência e posteriormente um hábito adquirido (subconsciência) dos comportamentos coletivos e individuais da sua equipa. É óbvio que este processo pode demorar semanas ou meses ou pode mesmo não acontecer;

2- Depois de consolidares a tua forma de jogar e os teus jogadores subconscientemente praticarem aquilo que se quer, o treinador deve tirá-los da “zona de conforto” que é a sua forma habitual de jogar e provocar dificuldade, complexidade aumentada, variabilidade na operacionalização. Como? Provocar no treino aquilo que as equipas adversárias vão tentar fazer para derrotar o nosso modelo vitorioso/consistente e provocar no treino a grande imprevisibilidade que o jogo pode ter dentro da previsibilidade que se quer que seja a tua forma de jogar;

Depois, existe um fator que será talvez o mais importante na construção de modelos consistentes que é o facto de a ideia do treinador só ser bem-sucedida se treinada e se criar emoções positivas nos jogadores, isto é, os jogadores têm de acreditar naquilo que fazem para a aprendizagem acontecer, o comportamento tornar-se um hábito consciente e depois subconsciente. Eu escrevo à direita porque me habituei a escrever com essa mão e fui bem sucedido e tive a minha mãe a motivar-me, se eu começar a escrever à esquerda, habituar-me e se me derem um feedback ainda mais positivo e motivador do que a minha mãe me dava eu começo a acreditar que escrevo melhor à esquerda. Portanto é preciso crença, aceitação e sucesso na ideia de jogo do treinador.

Como treinador considero estes os passos essenciais para a construção de um modelo de jogo consistente que normalmente não acontecem na grande maioria das equipas porque o problema está na operacionalização referida acima e na dificuldade em criar uma relação treinador-atleta positiva e emocional. Essencialmente, os treinadores “dão passos maiores que a perna” na operacionalização inicial, não consolidando comportamentos ora porque são pressionados com resultados ora porque se pressionam a si próprios e aos seus jogadores por quererem jogar o seu “jogar” em 1-2 treinos ou 1-2 semanas. Se a direção do Barcelona fosse “resultadista” e se Pep Guardiola não continuasse crente e fizesse acreditar aos seus jogadores que era possível chegar ao suposto tiki-taka não teríamos chegado ao melhor futebol de todos os tempos (a minha opinião) e teríamos Guardiola despedido à 4ª ou 5ª jornada.
retirado de fbbarcelona.blogspot.com

Para finalizar o que são realmente modelos de jogo consistentes? Na minha opinião são aqueles que ganham mais jogos mas principalmente são aqueles que em momentos cruciais de uma época estão preparados a todos os níveis, seguindo uma ideia de jogo clara e adaptando-se constantemente às dificuldades que o adversário lhes poderá colocar. Um exemplo que vos posso dar é o de Pep Guardiola no Bayern que é apenas o treinador mais titulado do mundo na última década e que revolucionou o jogo. Será que a sua equipa estava preparada para a eliminatória da Liga dos Campeões em que o Bayern foi eliminado pelo Real Madrid de forma categórica nas meias-finais em 2013/2014 (vitória do Real 1-0 em casa e vitória 4-0 fora)? Na minha opinião não porque o Bayern tinha uma forma de jogar bastante consolidada (operacionalização em função da sua ideia) mas depois não promoveu contextos de treino que adaptassem essa forma de jogar aquilo que seria o Real Madrid nesses jogos. Nesse dia, e sendo Pep Guardiola um treinador tão perfecionista, ele percebeu que o seu modelo de jogo não era totalmente consistente. 

E daí falarmos em modelos inacabados, em constante evolução! 

Cláudio Costa

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A Importância do Treinador

Retirado de sicnoticias.sapo.pt
Depois de mais um escaldante dérbi, e depois das palavras, mais ou menos pensadas do treinador do Sporting, uma coisa é certa. “Nos últimos anos o Benfica jogou 14 vezes com o Sporting e perdeu apenas 1, nesta época jogou 2 e perdeu as 2…”.

Já falei mais que uma vez do Jorge Jesus no blog e mostrei a minha admiração por ele. Parece-me que José Mourinho foi um treinador que, sem dúvida alguma veio mostrar ao mundo que o papel do treinador é fundamental e que, mesmo com jogadores menos cotados internacionalmente, um bom treinador consegue fazer um excelente trabalho. Mostrou que quando se é bom, consegue-se ter sucesso em várias ligas, com jogadores diferentes e com culturas diferentes. E que as mesmas equipas com treinadores diferentes têm resultados completamente diferentes.

No entanto, as pessoas são de memória curta, o espetáculo do Mourinho no campeonato português já vai longe, e a importância do treinador para os adeptos portugueses, começa mais uma vez a desvanecer. Mas mais uma vez aparece alguém para desfazer o mito, Jorge Jesus… Esteve 6 épocas no Benfica, das quais 3 é campeão, consegue alcançar duas finais europeias e bons resultados internacionais. Num clube que estava há bastantes anos curvado à hegemonia do Porto. Muda de clube e mostra que, não só o Benfica não tinha bons resultados apenas pela crescente aposta da direção, como o Sporting não ganhava ao Benfica tão poucas vezes pela falta de aposta da sua.

O Sporting pode até não ser campeão, o campeonato ainda vai no início, mas saltam à vista as mudanças que estas duas equipas sofreram com a alteração de treinador.

Não querendo ser mal interpretado, eu não sou um fã da pessoa que é Jorge Jesus. Mas parece-me que os fãs do Brad Pitt, do Justin Biebber, do Ronaldo ou de outra celebridade qualquer, também não o são pela pessoa em si mas sim pelo trabalho que realizam e pela forma como o fazem. Eu sou um fã do Jorge Jesus pelo treinador que é e pelo que tem feito no futebol português.

É um treinador que sabe muito a nível tático, que prepara os jogos até ao ínfimo pormenor, das bolas paradas aos duelos individuais. Que é um professor do seu futebol para os jogadores e que acima de tudo, ao contrário do que muitas pessoas dizem, tem aprendido bastante ao longo destes anos que esteve na Primeira Liga. Aprendeu com as derrotas e com as vitórias que teve, consegue muito melhor perceber as debilidades e condicionamentos da sua equipa e dar-lhes a volta quando é necessário. E fazer uma melhor gestão para ir de encontro às suas prioridades.

Não é, na minha opinião, o melhor treinador do mundo, como ele se autointitula. Tem que melhorar a gestão de imprensa e da sua imagem, que não sendo das capacidades mais importantes de um treinador, são parte integrante das condicionantes para a estabilidade da equipa. Tem também de melhorar a forma como trata os jogadores, que resulta mas, a meu ver, cria algum desgaste na sua relação com os jogadores a longo prazo. Quando melhorar, se melhorar estes aspetos, será ainda mais difícil competir com ele.

Será a aposta mais segura, para a vitória do campeonato, pela experiência e aprendizagem que tem do campeonato. Não desprezando, todos os outros fatores que se conjugam para o sucesso de uma equipa, quando as equipas têm potenciais aproximados, com condições semelhantes, os treinadores fazem toda a diferença. E o Jorge Jesus é mais uma prova disso. 

Hugo Pinto

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Equipa nova – Como começar (a ganhar)?


Quem nunca se sentiu perdido por chegar a uma nova equipa e os jogadores não fazerem nada daquilo que esperava?


Isso é o mais normal, ora porque os treinadores anteriores não trabalhavam da mesma forma, ou porque muitos dos jogadores são novos na equipa, porque são jogadores que nunca jogaram futebol ou têm deficiências ao longo da sua formação.


Seja por que razão for, a menos que se esteja num clube com uma formação bem coordenada, com princípios e ideias comuns, quando se tem uma equipa nova, os jogadores têm uma ideia de jogo distinta da do treinador e muitas vezes distinta uns dos outros. 


Este, na minha opinião, é o grande problema que o treinador tem que resolver quando chega a uma equipa. 


O primeiro passo para resolver esse problema já está dado, é detetar que existem erros e dificuldades de entendimento dos nossos jogadores. Quando conseguimos detetar que a equipa não está bem e que precisa de melhorar muitos aspetos é ótimo, quer dizer que temos um ponto de partida!


O passo seguinte será hierarquizar os problemas, do mais urgente para o menos. Os que necessitam de ser corrigidos imediatamente para que a equipa tenha rendimento o mais cedo possível e os que podem esperar mais um pouco.


O maior erro é tentar corrigir tudo ao mesmo tempo. Dar demasiada informação é contraproducente, os jogadores não conseguem apreender tudo ao mesmo tempo, acabam por ficar confusos e não captar quase nada ou captar da forma errada.


Mas a que devemos dar prioridade inicialmente?


Cada equipa é única e tem problemas e dificuldades específicas, mas existem certos problemas que todas as equipas têm e que podem ser corrigidos logo de início.


Na minha opinião o mais urgente é a orientação racional do espaço (ORE) e os comportamentos dos jogadores no centro de jogo.


Orientação Racional do Espaço (ORE) – Uma boa disposição em campo dos jogadores a atacar e a defender é essencial. A noção de campo grande, da ocupação dos 3 corredores quando em organização ofensiva é uma das minhas prioridades. E claro, por oposição a noção de campo pequeno e ocupação dos corredores mais próximos da bola quando estamos em organização defensiva. Acredito na defesa à zona portanto a ORE é uma das minhas prioridades, a disposição tendo como referência primeiro a bola e depois os companheiros, a zona do campo e o adversário.


Centro de Jogo – Trabalhando por comportamentos, por princípios ou seja de que forma for, as ações dos jogadores mais próximo da bola são as mais importantes num jogo de futebol. Portanto o nosso foco inicial deve ser sempre mostrar aos nossos atletas como queremos que eles atuem nas várias situações que lhes podem surgir. Partindo da situação de 1x0 até ao 3x3 temos que lhes explicar como resolver todos os problemas que lhes surgem nos vários setores do terreno (não queremos que os nossos jogadores resolvam um 3x2 no setor defensivo da mesma forma que resolvem no setor ofensivo). Assim não só aprenderão a resolver as várias situações como saberão como é que os colegas estão a pensar agir numa determinada situação.


Depois de identificar os problemas e hierarquizá-los passamos à operacionalização. Mas esse é um assunto de um próximo texto.

Hugo Pinto