sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Jogo Individual vs Jogo Coletivo


Comparando individualmente os 11 jogadores titulares do Barcelona e do Real Madrid, ou até mesmo o plantel, facilmente se verifica um equilíbrio: para uns o Barça tem os melhores, para outros tem o Real. Na minha opinião ambas tem os melhores do mundo, uns têm ideias de jogo comuns, outros nem por isso!

Comparando coletivamente: domínio absoluto do Barça… Real Madrid 0-4 Barcelona!

Como é possível haver tanta diferença em termos de qualidade de jogo, de domínio, entre duas equipas que em termos individuais são tão próximas?

“O todo é maior do que a simples soma das suas partes” citando Aristóteles.


A expressão acima transcrita em muito se relaciona com a filosofia/ideia de jogo/modelo do Barça. Jamais um jogador vencerá uma equipa. 

Ter os melhores ajuda, mas não é tudo. A grande diferença está na forma como todos os jogadores do Barça percebem a filosofia/ideia de jogo/modelo e acreditam que aquela é a melhor forma para ganhar, refletindo a existência de uma identidade coletiva. 

Como é que a equipa percebe e interpreta tão bem as suas ideias? Na minha opinião, entre outros fatores, existem dois elementos preponderantes: o processo de treino e a cultura de clube!

No último clássico entre Real Madrid e Barcelona, o primeiro golo do jogo, marcado por Suarez, representa na perfeição o jogo coletivo a que me refiro. A capacidade que a equipa tem em oscilar o ritmo de jogo através do passe é notável, num momento quase que adormece, noutro parece que decidem à velocidade da luz. 

Vídeo (Golo 0-1 1'19'' até 1'36'')


Comentário ao vídeo:
Sergi Roberto – Olhar antes de receber, jogar para quem está de frente, jogar entre linhas e entre adversários, toque, tomada de decisão. Incrível como emergem da cantera estes craques à Barcelona. Não é um craque qualquer. É à Barcelona, com comportamentos/perceção do jogo dentro da linha de Iniesta, Busquets e Xavi. Vejam como joga sem bola quando a equipa a tem! 

Iniesta “com bola um passo atrás” campo grande. Era para receber a bola?
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Os pormenores que rapidamente se tornam “promaiores”, sub-principios que são de uma importância crucial para este jogar. Estes comportamentos, fruto do treino e da crença que há no jogar desta forma, tornam-se num hábito motor, emergindo de forma natural no decorrer do jogo, quase como se de atos involuntários se tratassem. 

A oscilação de ritmo/velocidade de jogo que o Barça impõe exige perceção do que é que o jogo naquele momento pede, e para tal tem que ter em consideração um conjunto de fatores tais como a zona da bola, o posicionamento da equipa adversária, o posicionamento da própria equipa. A grande questão parece-me a capacidade que todos ou quase todos os jogadores têm em jogar sem bola, quando a equipa a tem na posse. Jogar em função do colega, não olhar só a bola. Muitas vezes é visível a mobilidade que alguns jogadores dão, não tendo por objetivo receber a bola, mas sim abrir espaço para alguém entrar, ou até para o portador progredir. Isto tem muito de sentido coletivo, tal como o passe para quem está de frente para o jogo. Há respeito pelas ideias, pelos movimentos dos colegas; não há espaço para egos e individualismos. 


O plano de jogo de Rafa Benítez para o Clássico assentou claramente no jogo individual, colocando os craques todos, à espera que estes - que do ponto de vista individual são igualmente monstros - resolvam. A verdade é que normalmente funciona, face à diferença de “armas”. No entanto, com equipas similares fica mais difícil esperar que os jogadores “sozinhos” ganhem o jogo!

Tiago Coelho

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Sporting Vs Benfica - A Minha Opinião Tática do Derbi

O último Sporting – Benfica foi sem dúvida um jogo de emoções fortes, equilibrado e onde a estratégia/plano antes e durante o jogo foi sem dúvida muito importante para este jogo extremamente competitivo.

Neste sentido resolvi fazer a minha interpretação tática ao dérbi.

Em primeiro lugar acho que Rui Vitória apresentou o melhor plano de jogo dos três jogos que já realizou contra o Sporting, ao colocar um meio-campo de três jogadores com maior capacidade em ter a bola (Samaris, Talisca e Gaitan) e um deles com grande capacidade para dar mobilidade ao setor médio (Gaitan). Equilibrou as forças no meio campo e deu-lhe capacidade de circulação de bola. O facto de ter sido dominado no setor médio no jogo para o campeonato, onde o Sporting provocou grande superioridade nessa zona e onde para mim foi a chave do jogo (André Almeida/Samaris Vs William, Adrien, João Mário, Ruiz, Teo em constante jogo interior), fez com que o treinador alterasse a estrutura/sistema mais usado pelo Benfica este ano. Já o tinha feito na Supertaça e bem, mas para mim não foi com as peças certas (Samaris, Fejsa, Talisca no setor médio = pouca mobilidade e criatividade; Gaitan, Pizzi e Jonas no setor ofensivo = pouca profundidade e pouca largura/velocidade).

Por isso no jogo de Sábado, a mobilidade de Gaitan no centro do terreno em diagonais constantes sobre os corredores laterais e a criação de superioridade no setor médio com Pizzi, provocou grande dificuldade ao meio-campo do Sporting porque deixou William indeciso nos deslocamentos defensivos (acompanhava ou não os deslocamentos variáveis de Gaitan) e obrigou Adrien a esforço redobrado na pressão ao meio-campo do Benfica que conseguiu na primeira parte ter bola, embora após o meio da primeira parte tenha abdicado um pouco disso. Acredito que neste ponto teve a chave do sucesso do Benfica em grande parte da primeira parte. 

Depois para mim existem duas razões para a supremacia do Sporting na segunda parte: a adaptação estrutural do Sporting com o seu treinador a mexer e bem nas peças do puzzle e com a quebra física e mental de alguns jogadores do Benfica com menos tempo de jogo nesta fase da época e que em jogos desta natureza competitiva faz a diferença.

Jesus ao colocar João Mário mais perto de Adrien e William equilibra o meio-campo e ganha na interação destes três comparativamente com Samaris-Talisca-Gaitan, pouco habituados a jogar juntos no setor médio, e ao colocar Gelson perto de Eliseu permite explorar ainda mais uma das maiores limitações do Benfica, com todo o respeito pelo jogador internacional português, que está numa fase menos boa. Esta é a primeira razão que encontro.

Depois, quem diz que os jogadores precisam de descanso enganam-se, porque o grande problema de Vitória foi a quebra física e mental de atletas que têm jogado menos, como Talisca e Pizzi, bem como o desgaste também físico e mental de Gaitan que raramente joga naquela posição (podes estar muito bem preparado para correr mas se te colocarem a nadar tu vais sentir cansaço/dor muscular no dia a seguir; na alteração posicional a mesma coisa embora em menor preponderância) e que não suportaram o maior ritmo de Adrien, William e João Mário, jogadores com muitos minutos nas pernas. Portanto, se equilibraram o setor médio e ainda por cima estavam com maior ritmo competitivo, parece-me evidente que a supremacia do Sporting iria acontecer. E aí Vitória na minha opinião mexeu mal, ao colocar André Almeida no lugar de Pizzi, voltando a colocar Gaitan numa ala, porque para além da quebra física da equipa, ainda lhe deu uma maior quebra mental ao dar um sinal de medo numa eliminatória “mata-mata”. Eu teria substituído Eliseu por André Almeida para controlar Gelson e ao tirar Pizzi colocaria Carcela (bons jogos sempre que jogou) dando um sinal da minha vontade de ganhar o jogo (“mata-mata”!!!). Obviamente que a frio tudo será sempre mais fácil e obviamente Rui Vitória melhor que ninguém sabe porque optou assim. 

Em conclusão, o Sporting ganha o jogo pelo plano de jogo de Jorge Jesus durante o jogo com a alteração posicional de João Mário e entrada de Gelson, pela dimensão física e mental de alguns jogadores do Benfica que não tiveram uma adaptação antecipada a um jogo desta intensidade física, tática e mental (os grandes jogos são preparados muito atrás da semana deste, do ponto de vista tático, físico e mental!) porque nem Pizzi, nem Talisca, nem Gaitan (do ponto de vista posicional) estavam preparados para esta competitividade e por último Rui Vitória na minha opinião enfraqueceu mentalmente a sua equipa com as substituições, porque em jogos a eliminar ganhas ou estás fora e o treinador na minha opinião colocou a derrota na mente dos jogadores!

Concordam com a opinião?

Têm outra leitura/interpretação do jogo?

Para terminar, reforço que esta temática do blog (Treinador de Bancada) é uma interpretação vista de fora, como um verdadeiro treinador de bancada, pelo que é uma opinião sem conhecimento do que se passa internamente nas duas equipas.

Cláudio Costa

domingo, 22 de novembro de 2015

O Treinador de Formação não é SÓ um Treinador

Um treinador de jovens tem de ser completamente diferente daqueles que aparecem na televisão. Se os educadores de infância não podem ser professores do 1º ciclo, professores do 1º ciclo que não podem ser educadores de infância nem do 2º ciclo e por aí em diante, porque é que os treinadores sub-7 e sub-8 podem ser treinadores dos sub-19? E pior… Porque é que os treinadores dos sub-11 que querem ser treinadores dos Seniores vão para treinadores de sub-11?


O treinador de crianças deve especializar-se naquilo que faz, ser recompensado por isso e fazê-lo da melhor forma possível.

O problema é que o desporto e a formação das nossas crianças através dele é completamente descorada. Apesar do desporto estar na moda, o papel dele na formação das pessoas está completamente posto de parte. No entanto, isso não deve ser desculpa para nós, treinadores, deixarmos de ser bons. Bons treinadores e bons FORMADORES.

Um treinador de formação tem de transmitir bons valores e boas crenças. O querer ganhar a todo o custo e transmitir isso para os atletas parece, aparentemente, inofensivo. É só um desporto, num clube com poucas ambições, ninguém vai reparar. O grande problema é que estes jovens estão numa idade bastante sensível, estão a formar o seu caráter e a sua hierarquia de valores. No imediato, estas ações dos treinadores não parecem mudar nada mas quem serão esses meninos no futuro? Será que vão ser jogadores de futebol? Será que vão ser políticos? Será que vão ser donos de uma grande empresa? Será que se se tornarem pessoas demasiado competitivas, que querem ganhar a qualquer custo e que não se importam com o que levam à frente, não serão maus profissionais? Não serão más pessoas? E o Treinador/Formador não tem cota parte nisso?

O treinador de formação tem um papel de grande influência no molde da personalidade destes pequenos. Se é certo que grande parte da personalidade é explicada pela genética, também se sabe que uma boa parte se deve ao ambiente em que as crianças estão inseridas e aos adultos-modelo. E o treinador é um dos adultos-modelo com mais peso. É o que possibilita uma das atividades que a criança mais gosta e que o faz/ou devia fazer evoluir e crescer nessa atividade.

O treinador de formação, ao contrário do treinador de equipas de competição, deve pôr a evolução individual do atleta à frente dos resultados competitivos do clube. Ou seja, dar hipóteses para os que estão menos aptos poderem evoluir e promover os mais aptos a escalões superiores onde possam ter mais competitividade e consequentemente evoluir também; mesmo que isso prejudique os resultados da equipa.

O treinador de formação deve promover a integração. Numa altura em que se fala muito de “bulling”, fenómeno que na minha opinião sempre existiu, é ainda mais necessário que os treinadores promovam uma boa ligação entre todos os seus jogadores. Fazer entender que numa equipa todos temos o mesmo objetivo e que isso nos une, independentemente das nossas diferenças individuais.

Durante o crescimento, especialmente nos escalões onde se costuma dar o salto de crescimento pubertário, existem muitas diferenças maturacionais, jovens muito avançados e outros muito atrasados. O treinador de formação tem que conseguir ver para além dessas diferenças, dar tempo a quem precisa de tempo. Perceber que as limitações que alguns jogadores têm não se devem a falta de qualidade mas sim ao timing de crescimento. E dar estratégias e qualidades a esses meninos para contornar as diferenças físicas.

O treinador tem que ensinar o jogo. Existem princípios e comportamentos que o treinador deve ensinar aos seus jogadores. Eles devem saber jogar e devem entender, interpretar cada momento e reagir em consonância. Para isso o treinador de formação tem de conhecer muito bem o jogo. Como pode um professor de inglês ensinar a língua se não sabe falar corretamente? O treinador deve conhecer o jogo, pensar o jogo, estudar o jogo e tentar estar o mais informado possível para poder ensinar o melhor possível.

O treinador de formação deve ter a noção que o futebol é um jogo. Que os atletas são crianças, que jogam para se divertir. O treinador tem obrigação de não tirar a diversão aos seus jogadores, os jogadores devem adorar o futebol e acima de tudo devem adorar fazer desporto.

O treinador de formação deve preocupar-se com o que os seus jogadores fazem fora do campo, é uma grande referência como já foi dito e pode intervir favoravelmente na consciencialização dos seus atletas. Tanto a nível pessoal como académico, nunca se esquecendo que essas crianças poderão não vir a ser jogadores de futebol profissional e que têm, obrigatoriamente, de ter outra alternativa.

O treinador de formação deve ensinar aos seus atletas bons hábitos alimentares; o que devem comer mais e o que devem evitar; que alimentação devem ter antes e depois do exercício, sublinhar a importância da hidratação. Bem como, alertar para comportamentos menos próprios de atletas, que os podem prejudicar no imediato e no futuro, como hábitos alcoólicos, tabágicos e drogas.

Acima de tudo um treinador de formação tem de ter a consciência que tem o poder de mudar o mundo, pois está a lidar com os homens do futuro. Possíveis políticos, líderes de grandes empresas, pessoas com poder para fazer a diferença. Quando bem ensinados poderão fazer a diferença para o bem, quando mal ensinados…

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Mister o que é o princípio da PROGRESSÃO?

Hoje vou contar-vos uma experiência pela qual passei recentemente num jogo de Sub-12/13. 

Fotografia retirada de www.123rf.com
O campeonato distrital de infantis em Coimbra é pouco competitivo e muitas vezes os campeões de série ou mesmo distritais decidem-se no confronto entre as 2-3 melhores equipas, pelo que quando uma dessas melhores equipas defronta uma equipa mais fraca o resultado é normalmente bastante, e repito bastante desnivelado.

Foi o que aconteceu há pouco tempo num jogo da minha equipa que ao intervalo do jogo vencia o adversário por 10-0 salvo erro. Perante este resultado resolvi alterar o objetivo coletivo em organização defensiva da minha equipa, não porque tive pena do adversário não conseguir jogar mas porque realmente queríamos organizarmos defensivamente mais atrás (Organização Defensiva em bloco mais baixo) para poder melhorar o nosso ataque rápido, que é um dos objetivos nesta fase do planeamento. Portanto, a nossa equipa deu a bola ao adversário no seu meio campo! 

Acontece que fiquei estupefacto ao aperceber-me que o portador da bola do adversário, quando recebia do guarda-redes não conduzia para a frente ou conduzia a passo sem saber o que fazer ao objeto mais importante do jogo! Para além disso, quando havia um pontapé de baliza os dois defesas em vez de colocarem-se o mais á frente possível, colocavam-se junto à linha final, estando os nossos atletas no meio-campo! Revolto-me, não compreendo, não podem haver atletas com 12-13 anos que não sabem praticar, perceber o princípio mais importante do jogo de Futebol a atacar, o princípio da Progressão. São eles os culpados? Será o treinador que começou a orientá-los este ano? Os miúdos não são de certeza.

Porque acontece isto? Porque não existem modelos de ensino do jogo, não existem modelos de ensino que promovam a evolução do jogador, o único objetivo é a autopromoção do treinador que se não luta pela faixa de campeão, não interessa o treino, não interessa a evolução coletiva e individual.

O princípio da progressão é o maior e mais importante princípio do jogo em ataque e deve ser o primeiro a ser ensinado. Começa na bola, na relação “amorosa” com ela nas idades iniciais (5-6-7 anos), ensinando a técnica, depois colocando o adversário com o objetivo de o superar e chegar ao grande objetivo do jogo, o golo, e terminando com ensino dos restantes princípios sempre em associação com este grande princípio, porque tu dás cobertura ofensiva para permitir progressão por outra zona, tu dás mobilidade para receberes numa zona mais à frente no campo (progressão no terreno) e tu dás espaço para permitir que o portador possa progredir na zona onde está.

Mas o que interessa é o 7x7 em miúdos de 7-8-9 anos quando eles mal vêem o colega do lado quanto mais os outros 5, o que interessa é posses de bola com o jogo dos 10 passes sem orientação, sem o maior objetivo do jogo, e o que interessa são circuitos técnicos para entreter onde nem sequer explicam porque é que aquilo é importante para o jogo.

E depois alguns iluminados ainda dizem que a falta de competitividade no distrito é devido ao clube grande da região que recruta os melhores! É muito fácil colocar a culpa nos outros, será sempre mais fácil, por isso eu sempre saúdo os treinadores que no jogo da 2ª volta eu percebo o quanto os atletas evoluíram, o quanto eles melhoraram no conhecimento do jogo independentemente se perderam por mais ou por menos! 

Mister o que é o princípio da Progressão? 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Como criar um modelo de jogo consistente?

Quem gosta de ser treinador de futebol e tem o constante desejo de melhorar deve para além da aprendizagem através dos livros, dos estágios, entre outras formas de aprendizagem, deve também ver muitos jogos de futebol como treinador e não como um simples espetador, já que esta é uma das melhores formas de percecionar novas tendências evolutivas do jogo e assim escolher uma ideia ou aperfeiçoar uma ideia de jogo favorita ou que corresponda às características dos jogadores que orienta.

Por isso, e para começar a falar do tema que questiono no título, quando nós observamos um conjunto de jogos de equipas treinadas por Guardiola, Jorge Jesus ou Lopetegui por exemplo, verificamos que de jogo para jogo, os princípios que sustentam a sua ideia de jogo nos diferentes momentos (atacar, defender, transitar) mantêm-se consistentes e os jogos “fluem” sem grandes oscilações de rendimento de acordo com esses princípios.

Então como chegar a esses modelos consistentes? Porque é que alguns treinadores chegam a esses modelos consistentes e outros não? O que é realmente um modelo de jogo consistente?

Em primeiro lugar, é fundamental uma apresentação teórica e de uma forma simplista das grandes ideias da tua forma de jogar a atacar, defender e nos momentos de perda e recuperação da bola. O uso de frases, vídeos de equipas-modelo, esquemas, etc. parece-me uma excelente forma dos jogadores entenderem aquilo que se pretende para a forma de jogar.

Em segundo lugar, o treinador deve construir um processo de treino planeado para chegares ao tal modelo de jogo consistente. Como construir? Quais os passos?

1- Operacionalização (treinos/exercícios) inicial com incidência total na tua forma de jogar, e nas fases do jogo em que o treinador dá mais importância no seu modelo de jogo, com o objetivo claro de os atletas tomarem consciência e posteriormente um hábito adquirido (subconsciência) dos comportamentos coletivos e individuais da sua equipa. É óbvio que este processo pode demorar semanas ou meses ou pode mesmo não acontecer;

2- Depois de consolidares a tua forma de jogar e os teus jogadores subconscientemente praticarem aquilo que se quer, o treinador deve tirá-los da “zona de conforto” que é a sua forma habitual de jogar e provocar dificuldade, complexidade aumentada, variabilidade na operacionalização. Como? Provocar no treino aquilo que as equipas adversárias vão tentar fazer para derrotar o nosso modelo vitorioso/consistente e provocar no treino a grande imprevisibilidade que o jogo pode ter dentro da previsibilidade que se quer que seja a tua forma de jogar;

Depois, existe um fator que será talvez o mais importante na construção de modelos consistentes que é o facto de a ideia do treinador só ser bem-sucedida se treinada e se criar emoções positivas nos jogadores, isto é, os jogadores têm de acreditar naquilo que fazem para a aprendizagem acontecer, o comportamento tornar-se um hábito consciente e depois subconsciente. Eu escrevo à direita porque me habituei a escrever com essa mão e fui bem sucedido e tive a minha mãe a motivar-me, se eu começar a escrever à esquerda, habituar-me e se me derem um feedback ainda mais positivo e motivador do que a minha mãe me dava eu começo a acreditar que escrevo melhor à esquerda. Portanto é preciso crença, aceitação e sucesso na ideia de jogo do treinador.

Como treinador considero estes os passos essenciais para a construção de um modelo de jogo consistente que normalmente não acontecem na grande maioria das equipas porque o problema está na operacionalização referida acima e na dificuldade em criar uma relação treinador-atleta positiva e emocional. Essencialmente, os treinadores “dão passos maiores que a perna” na operacionalização inicial, não consolidando comportamentos ora porque são pressionados com resultados ora porque se pressionam a si próprios e aos seus jogadores por quererem jogar o seu “jogar” em 1-2 treinos ou 1-2 semanas. Se a direção do Barcelona fosse “resultadista” e se Pep Guardiola não continuasse crente e fizesse acreditar aos seus jogadores que era possível chegar ao suposto tiki-taka não teríamos chegado ao melhor futebol de todos os tempos (a minha opinião) e teríamos Guardiola despedido à 4ª ou 5ª jornada.
retirado de fbbarcelona.blogspot.com

Para finalizar o que são realmente modelos de jogo consistentes? Na minha opinião são aqueles que ganham mais jogos mas principalmente são aqueles que em momentos cruciais de uma época estão preparados a todos os níveis, seguindo uma ideia de jogo clara e adaptando-se constantemente às dificuldades que o adversário lhes poderá colocar. Um exemplo que vos posso dar é o de Pep Guardiola no Bayern que é apenas o treinador mais titulado do mundo na última década e que revolucionou o jogo. Será que a sua equipa estava preparada para a eliminatória da Liga dos Campeões em que o Bayern foi eliminado pelo Real Madrid de forma categórica nas meias-finais em 2013/2014 (vitória do Real 1-0 em casa e vitória 4-0 fora)? Na minha opinião não porque o Bayern tinha uma forma de jogar bastante consolidada (operacionalização em função da sua ideia) mas depois não promoveu contextos de treino que adaptassem essa forma de jogar aquilo que seria o Real Madrid nesses jogos. Nesse dia, e sendo Pep Guardiola um treinador tão perfecionista, ele percebeu que o seu modelo de jogo não era totalmente consistente. 

E daí falarmos em modelos inacabados, em constante evolução! 

Cláudio Costa

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A Importância do Treinador

Retirado de sicnoticias.sapo.pt
Depois de mais um escaldante dérbi, e depois das palavras, mais ou menos pensadas do treinador do Sporting, uma coisa é certa. “Nos últimos anos o Benfica jogou 14 vezes com o Sporting e perdeu apenas 1, nesta época jogou 2 e perdeu as 2…”.

Já falei mais que uma vez do Jorge Jesus no blog e mostrei a minha admiração por ele. Parece-me que José Mourinho foi um treinador que, sem dúvida alguma veio mostrar ao mundo que o papel do treinador é fundamental e que, mesmo com jogadores menos cotados internacionalmente, um bom treinador consegue fazer um excelente trabalho. Mostrou que quando se é bom, consegue-se ter sucesso em várias ligas, com jogadores diferentes e com culturas diferentes. E que as mesmas equipas com treinadores diferentes têm resultados completamente diferentes.

No entanto, as pessoas são de memória curta, o espetáculo do Mourinho no campeonato português já vai longe, e a importância do treinador para os adeptos portugueses, começa mais uma vez a desvanecer. Mas mais uma vez aparece alguém para desfazer o mito, Jorge Jesus… Esteve 6 épocas no Benfica, das quais 3 é campeão, consegue alcançar duas finais europeias e bons resultados internacionais. Num clube que estava há bastantes anos curvado à hegemonia do Porto. Muda de clube e mostra que, não só o Benfica não tinha bons resultados apenas pela crescente aposta da direção, como o Sporting não ganhava ao Benfica tão poucas vezes pela falta de aposta da sua.

O Sporting pode até não ser campeão, o campeonato ainda vai no início, mas saltam à vista as mudanças que estas duas equipas sofreram com a alteração de treinador.

Não querendo ser mal interpretado, eu não sou um fã da pessoa que é Jorge Jesus. Mas parece-me que os fãs do Brad Pitt, do Justin Biebber, do Ronaldo ou de outra celebridade qualquer, também não o são pela pessoa em si mas sim pelo trabalho que realizam e pela forma como o fazem. Eu sou um fã do Jorge Jesus pelo treinador que é e pelo que tem feito no futebol português.

É um treinador que sabe muito a nível tático, que prepara os jogos até ao ínfimo pormenor, das bolas paradas aos duelos individuais. Que é um professor do seu futebol para os jogadores e que acima de tudo, ao contrário do que muitas pessoas dizem, tem aprendido bastante ao longo destes anos que esteve na Primeira Liga. Aprendeu com as derrotas e com as vitórias que teve, consegue muito melhor perceber as debilidades e condicionamentos da sua equipa e dar-lhes a volta quando é necessário. E fazer uma melhor gestão para ir de encontro às suas prioridades.

Não é, na minha opinião, o melhor treinador do mundo, como ele se autointitula. Tem que melhorar a gestão de imprensa e da sua imagem, que não sendo das capacidades mais importantes de um treinador, são parte integrante das condicionantes para a estabilidade da equipa. Tem também de melhorar a forma como trata os jogadores, que resulta mas, a meu ver, cria algum desgaste na sua relação com os jogadores a longo prazo. Quando melhorar, se melhorar estes aspetos, será ainda mais difícil competir com ele.

Será a aposta mais segura, para a vitória do campeonato, pela experiência e aprendizagem que tem do campeonato. Não desprezando, todos os outros fatores que se conjugam para o sucesso de uma equipa, quando as equipas têm potenciais aproximados, com condições semelhantes, os treinadores fazem toda a diferença. E o Jorge Jesus é mais uma prova disso. 

Hugo Pinto

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Equipa nova – Como começar (a ganhar)?


Quem nunca se sentiu perdido por chegar a uma nova equipa e os jogadores não fazerem nada daquilo que esperava?


Isso é o mais normal, ora porque os treinadores anteriores não trabalhavam da mesma forma, ou porque muitos dos jogadores são novos na equipa, porque são jogadores que nunca jogaram futebol ou têm deficiências ao longo da sua formação.


Seja por que razão for, a menos que se esteja num clube com uma formação bem coordenada, com princípios e ideias comuns, quando se tem uma equipa nova, os jogadores têm uma ideia de jogo distinta da do treinador e muitas vezes distinta uns dos outros. 


Este, na minha opinião, é o grande problema que o treinador tem que resolver quando chega a uma equipa. 


O primeiro passo para resolver esse problema já está dado, é detetar que existem erros e dificuldades de entendimento dos nossos jogadores. Quando conseguimos detetar que a equipa não está bem e que precisa de melhorar muitos aspetos é ótimo, quer dizer que temos um ponto de partida!


O passo seguinte será hierarquizar os problemas, do mais urgente para o menos. Os que necessitam de ser corrigidos imediatamente para que a equipa tenha rendimento o mais cedo possível e os que podem esperar mais um pouco.


O maior erro é tentar corrigir tudo ao mesmo tempo. Dar demasiada informação é contraproducente, os jogadores não conseguem apreender tudo ao mesmo tempo, acabam por ficar confusos e não captar quase nada ou captar da forma errada.


Mas a que devemos dar prioridade inicialmente?


Cada equipa é única e tem problemas e dificuldades específicas, mas existem certos problemas que todas as equipas têm e que podem ser corrigidos logo de início.


Na minha opinião o mais urgente é a orientação racional do espaço (ORE) e os comportamentos dos jogadores no centro de jogo.


Orientação Racional do Espaço (ORE) – Uma boa disposição em campo dos jogadores a atacar e a defender é essencial. A noção de campo grande, da ocupação dos 3 corredores quando em organização ofensiva é uma das minhas prioridades. E claro, por oposição a noção de campo pequeno e ocupação dos corredores mais próximos da bola quando estamos em organização defensiva. Acredito na defesa à zona portanto a ORE é uma das minhas prioridades, a disposição tendo como referência primeiro a bola e depois os companheiros, a zona do campo e o adversário.


Centro de Jogo – Trabalhando por comportamentos, por princípios ou seja de que forma for, as ações dos jogadores mais próximo da bola são as mais importantes num jogo de futebol. Portanto o nosso foco inicial deve ser sempre mostrar aos nossos atletas como queremos que eles atuem nas várias situações que lhes podem surgir. Partindo da situação de 1x0 até ao 3x3 temos que lhes explicar como resolver todos os problemas que lhes surgem nos vários setores do terreno (não queremos que os nossos jogadores resolvam um 3x2 no setor defensivo da mesma forma que resolvem no setor ofensivo). Assim não só aprenderão a resolver as várias situações como saberão como é que os colegas estão a pensar agir numa determinada situação.


Depois de identificar os problemas e hierarquizá-los passamos à operacionalização. Mas esse é um assunto de um próximo texto.

Hugo Pinto

sexta-feira, 15 de maio de 2015

William Carvalho – O mais rápido!

No futebol atual, uma das capacidades motoras mais valorizadas, senão a mais, é a velocidade. Alguns departamentos de scouting em Portugal, hierarquizam, em função do modelo de jogador por posição, um conjunto de fatores/características que pretendem para cada posição e é comum ver a velocidade nas mais variadas posições. Verdade é que a mesma depende de fatores determinantes como a mobilização dos processos nervosos, tipo de fibras musculares entre outros aspetos, sendo também uma capacidade motora que depende invariavelmente de fatores genéticos. 

Após uma breve descrição da capacidade motora e olhando o título do artigo, facilmente questionam, o que é que a velocidade, enquanto capacidade motora, tem a ver com o William Carvalho? Nada, ou tudo! Se pensarmos nas várias relações da própria equipa, que surgem no decorrer do jogo, facilmente se percebe que a velocidade e a velocidade de pensamento fazem o par prefeito. 

Dois tipos de velocidade, William representa na perfeição o que é a velocidade de pensamento no jogo. Tomada de decisão.

O meu objetivo quando decidi escrever sobre o William, mais propriamente a velocidade de pensamento, é suscitar-vos para o treino de formação e a importância do mesmo no desenvolvimento da velocidade de pensamento. O processo de treino na formação, na minha opinião, deve ser maioritariamente em especificidade, global, com interação de momentos com variantes e condicionantes que estimulem a tomada de decisão. Não tomem por certo que, limitar o número de toques, por exemplo, vai estimular a tomada de decisão, se descontextualizada, esta condicionante pode inibir a tomada de decisão. 

O jogo está mais rápido, exige cada vez mais que os jogadores decidam mais rápido e com qualidade sob pressão. Por isto mesmo é que, enquanto treinadores temos de ter a capacidade de criar contextos mais próximos da realidade de jogo, não digo que exercícios sem oposição, “rotinados” não devam ser feitos, têm é claramente que ter pouca percentagem de tempo na sessão de treino. Se queremos que os nossos jogadores joguem rápido, estes têm de pensar rápido o jogo no jogo. Estou certo de que o exercício de treino é a maior ferramenta do treinador, temos de ser criativos, promover contextos, esperar respostas, valorizar o comportamento/ação em foco, questionar o jogador, no fundo, conduzi-los para o nosso objetivo. A perceção do momento do jogo (observação, pensamento e execução) sob pressão, isto é, muito daquilo que é o jogo atualmente e mais importante do que a perceção do momento do jogo é a ação/resposta. Certamente que já verificaram um jogador tecnicamente evoluído, mas constatam que não é suficientemente rápido para o alto rendimento. Será? Uma equipa não é constituída somente por jogadores velozes, nem só por jogadores que pensam rápido. Dos dois tipos de velocidade acima descritos, ambas tem treinabilidade, mas a velocidade de pensamento, tomada de descião depende muito mais do treino do que de fatores genéticos, por isto mesmo, temos muito mais influência no desenvolvimento desta. Compete-nos a nós treinadores através do processo de treino potenciar as suas capacidades, tornando assim um jogador que até então era apenas tecnicamente evoluído, num jogador rápido do ponto de vista decisional.


Tiago Coelho

sábado, 9 de maio de 2015

Fases Sensíveis de Desenvolvimento das Capacidades Motoras do Jovem Futebolista - Potencializar o talento

Se os pais devem conhecer os estádios de desenvolvimento físico e intelectual dos seus filhos quando estes são crianças e adolescentes para desta forma potenciar o seu desenvolvimento, treinadores de desporto, neste caso particular treinadores de futebol, devem conhecer em que períodos o desenvolvimento de determinadas capacidades motoras e coordenativas são potencializadas pelo treino.

Será objetivo deste texto falar um pouco sobre fases sensíveis de desenvolvimento das capacidades motoras e a sua importância no planeamento do processo de treino.

Em primeiro lugar é importante definir o que são fases sensíveis e capacidades motoras.

Fases sensíveis ou períodos críticos são períodos limitados de tempo na vida dos indivíduos, em que eles respondem de forma mais intensa do que noutros períodos, a determinados estímulos do ambiente exterior. No caso do desportista, existem períodos em que estimulando uma determinada capacidade motora através do treino, o efeito deste sobre essa capacidade no desportista é potencializado. Após o término desses períodos o efeito do treino sobre determinada capacidade é reduzido de forma significativa. 

Capacidades motoras baseiam-se em predisposições genéticas e desenvolvem-se através dos estímulos de treino. Dividem-se em capacidades motoras condicionais (força, velocidade, resistência e flexibilidade) e capacidades motoras coordenativas (Ritmo, Orientação espacial, Reação, Coordenação Motora e Diferenciação Cinestésica).

O mais importante não é saber conceitos, é saber o que as ciências do desporto nos dizem sobre este tema, quais os períodos (fases sensíveis) em que o treino da velocidade, da força, da resistência, da flexibilidade e das capacidades coordenativas leva a ganhos mais significativos dessas mesmas capacidades.

O gráfico em baixo representa a curva de velocidade de crescimento (centímetro/ano) para rapazes e raparigas ao longo da infância e da adolescência até à idade adulta e indica-nos os períodos sensíveis para o desenvolvimento das capacidades motoras. 

Long-term Athlete Development & Optimal Windows of Trainability (Balyi and Way 2005)
De uma forma simplista, segundo o gráfico podemos afirmar que os períodos sensíveis para o desenvolvimento da flexibilidade, da velocidade e das capacidades coordenativas acontece preferencialmente na infância (5-11,12 anos), enquanto a resistência e a força têm os seus períodos críticos durante a adolescência até ao início da idade adulta, embora a velocidade tenha um segundo momento sensível ao seu desenvolvimento nesta fase. No entanto, fundamental referir o seguinte: 

Existe um momento da adolescência em que a velocidade de crescimento aumenta de forma abrupta, denominando-se este momento de pico de velocidade de crescimento, sendo este pico variável entre indivíduos do mesmo sexo e também entre sexos [sexo feminino (12-13 anos) normalmente tem um pico de velocidade de crescimento antes do sexo masculino (14-15 anos)]. Identificar quando irá acontecer este pico de velocidade de crescimento é fundamental, muito mais que as idades. E o que sabemos do desenvolvimento das capacidades motoras e coordenativas em associação com o pico de velocidade de crescimento? Capacidades coordenativas, 1º momento de desenvolvimento da velocidade e flexibilidade têm um maior desenvolvimento antes do pico de crescimento, durante o pico, o desenvolvimento da resistência e o 2º momento da velocidade é mais potencializado, enquanto após o pico de velocidade de crescimento, a força e a resistência anaeróbia têm a sua fase sensível.

Fundamental aqui será: 

- Conhecer as fases sensíveis de forma a desenvolver no momento exato as capacidades motoras e coordenativas dos atletas, não ficando comprometido o seu desenvolvimento máximo;

- Perceber que independentemente da metodologia de treino que consideram mais vantajosa para a aprendizagem do jogo de futebol, os treinadores de formação devem perceber que a sua operacionalização deve dar maior ênfase à capacidade motora e coordenativa que é mais potencializada no momento.

- Identificar precocemente o pico de velocidade de crescimento dos seus atletas (existem metodologias de avaliação), sabendo no entanto que os escalões de iniciados e juvenis são normalmente onde acontece o pico, de forma a ter em conta o princípio da individualidade, já que são idades em que podemos ter um atleta que já ultrapassou o pico e já poderemos desenvolver a força por exemplo, e termos outro atleta que ainda falta um ou dois anos para chegar ao pico e aí o foco será ainda sobre o desenvolvimento da velocidade por exemplo.

- Embora existam períodos sensíveis de desenvolvimento, qualquer capacidade motora ou coordenativa poderá ser sempre melhorada. O que queremos dar ênfase é que estes momentos críticos são fundamentais para o desenvolvimento máximo do talento. 

Cláudio Costa    

quinta-feira, 7 de maio de 2015

6 Formas de motivar os jogadores no treino de futebol

Existem várias estratégias para motivar os jogadores nos treinos de futebol. Vou falar essencialmente no meu caso que sou treinador de sub-13.

Para os atletas estarem motivados para o treino necessitam de gostar do treino (divertimento), têm que sentir que é desafiante (desafio), têm que sentir que não é monótono (variabilidade), têm que sentir que treinam por alguma razão (objetivos, metas), têm que gostar dos colegas e treinador (bom ambiente) e têm que sentir que são bons no que fazem (sucesso).

1ª - Divertimento: Uma estratégia para que os nossos atletas se divirtam nos treinos é utilizar jogos lúdicos, na minha semana de treinos (3 treinos semanais) existem sempre 2 a 3 exercícios lúdicos onde os atletas podem aprender e simultaneamente brincar e soltar a sua imaginação. Outra forma de os divertir é fazer jogo formal, não existe nenhum jogador de futebol que não goste e não se divirta com o jogo, nem que seja com menos jogadores e balizas mais perto mas sem restrições ou paragens.

2ª - Desafio: Os jogadores não gostam de coisas fáceis e nós não os devemos habituar a esse tipo de exercícios. Cada exercício deve levá-los ao limite e obrigá-los a superarem-se. Desde que seja um desafio possível de ser ultrapassado e que não leve à frustração, a tentativa de superação é sempre uma boa forma de motivar os jogadores.

3ª - Variabilidade: Apesar de ser necessário, por vezes, manter uma estrutura e um tipo de exercícios semelhantes, utilizar sempre os mesmos exercícios é chato para os jogadores, não gostam de saber sempre o que se vai fazer. A variabilidade de estímulos não só me parece uma boa forma de motivação, como me parece muito importante para o desenvolvimento técnico, tático, físico e mental do jogador.

4ª - Definir objetivos: Uma estratégia muito importante para manter os atletas focados e motivados é escolher muito bem os objetivos. Estes devem ser bastante claros e do conhecimento de todos. Precisam de ser atingíveis mas ambiciosos e devem ser reformulados sempre que necessário. Por exemplo: na minha equipa tínhamos como objetivo de época ficar em primeiro na nossa série, como perdemos o jogo que nos dava essa possibilidade, apesar de ser matematicamente possível ficar em primeiro, esse objetivo deixou de ser realista; decidi reformular os objetivos para manter os meus atletas sempre focados, passaram a ser o segundo lugar, ganhar todos os jogos e torneios que se avizinham e continuar a melhorar para que pudessem ser chamados à nossa equipa “A” para a fase final.

É essencial que os atletas saibam que todos os treinos têm um objetivo e qual é esse objetivo e que faz tudo parte de um planeamento para chegar a algum lugar, que não são treinos soltos. Eles sentem que o treinador é organizado e metódico e que fazem as coisas com algum significado.

5ª - Bom ambiente: É essencial que os jogadores sintam que aquela é a sua equipa e se sintam bem com os seus colegas e treinador. O sentimento de pertença, de saber que os colegas o apoiam e ao mesmo tempo que tem que se esforçar para merecer esse apoio faz com que os atletas se dediquem mais. Na minha equipa não deixo que os atletas critiquem os outros, a única pessoa que pode criticar sou eu, e se eu não critico mais ninguém critica. É essencial que os atletas sintam que podem errar para utilizarem todo o seu potencial, e para isso não podem ser inibidos com críticas dos colegas e treinador. A correção não deve ser em forma de crítica e sempre que possível utilizar o feedback positivo. O feedback em forma de sandwich (reforço positivo/negativo/positivo) é bastante bom, por exemplo quando um jogador remata e deveria chegar mais perto da baliza: “Bom remate… Deverias ter progredido mais porque não tinhas adversário… Mas foi um bom remate!”. 

Utilizar grupos diferentes sempre que possível e exercícios para melhorar a coesão de grupo também é uma boa forma de melhorar o ambiente.

6ª - Sucesso: Uma forma de os jogadores se sentirem motivados é sentirem que são bons e que estão a melhorar. Para isso, mais uma vez, é necessário que os objetivos estejam bem definidos, que sejam desafiantes mas alcançáveis. Tal como os objetivos da época, nos treinos, os exercícios precisam de ser estimulantes mas nunca demasiado complicados, os atletas têm que ter algum sucesso no que estão a fazer e ir sentindo uma progressão ao longo da época.




Este esquema, baseado num do site efdeportes.com, retrata o que se passa com os atletas de futebol. É um círculo de motivação, quanto mais entusiasmo e concentração mais atitude e coordenação motora, quanto mais atitude e coordenação mais autoestima e confiança, quanto mais confiança mais rendimento e quanto mais rendimento mais motivação. Todos os fatores do círculo são importantes e estão inter-relacionados e podemos intervir em todos.
Hugo Pinto

segunda-feira, 16 de março de 2015

Jogos reduzidos e o controlo da intensidade de treino

Atualmente as metodologias de treino desportivo, principalmente os desportos coletivos como o futebol valorizam muito mais a interação das dimensões técnica, tática, física e psicológica na construção dos exercícios de treino em detrimento do desenvolvimento separado de cada uma das dimensões, pelo que por exemplo, neste momento as equipas não desenvolvem a dimensão física descontextualizada da especificidade do jogo, isto é, cada vez menos existem treinos físicos de corrida, de circuitos ou treinos na praia ou no jardim da cidade.

É precisamente sobre o controlo da dimensão física, que temos e devemos ter sempre em conta, que irei escrever. Como varia a intensidade nos jogos condicionados ou jogos reduzidos quando manipulamos variáveis como o espaço, o número de atletas, o feedback ou as condicionantes do exercício? A base do controlo da dimensão física são os indicadores da intensidade tais como a frequência cardíaca, o lactato, a perceção subjetiva de esforço (Escala de Borg), o tipo de movimento (andar, correr, sprint), sendo através destes que avaliamos a intensidade dos jogos reduzidos.

Alguns estudos têm obtido alguns resultados importantes e interessantes sobre este tema.

Olhando à manipulação da variável espaço, o que devemos analisar será o que acontece aos indicadores fisiológicos quando mantemos o mesmo número de jogadores e aumentamos as dimensões do exercício, ou quando a relação espaço/jogador é aumentada. Segundo um estudo de revisão publicado em 2011 no Journal of Sports Medicine, a maioria dos estudos desenvolvidos indica um aumento da frequência cardíaca, do lactato e da perceção subjetiva de esforço com o aumento do espaço. Por exemplo, um estudo interessante realizado por Rampinini e colaboradores (2007) verificaram que tanto num exercício de 3x3 como 6x6, aumentando o espaço em 20%, a frequência cardíaca e a concentração de lactato apresentou valores superiores no espaço de dimensões superiores comparativamente com o espaço de dimensões médias e reduzidas. 

O nº de jogadores tem sido também uma das variáveis mais estudadas que podem influenciar a intensidade do exercício de treino. Os principais estudos parecem revelar valores superiores nos indicadores que determinam a intensidade quando o nº de jogadores diminui. No entanto, este aumento nos indicadores de intensidade com a diminuição do nº jogadores parece estar dependente do espaço de jogo, isto é, existem determinadas dimensões do exercício que vão ao encontro da redução da intensidade com o aumento do nº jogadores envolvidos e existem outras dimensões em que não existem evidências significativas na redução da intensidade. Dando um exemplo de um estudo realizado por Owen e colaboradores (2004), concluíram que houve uma redução mais evidente da frequência cardíaca de uma situação 2x2 para uma de 3x3 e para 4x4 num espaço de 25x20 metros, comparativamente com 2x2 para 3x3 em 20x15 metros e 3x3 para 4x4 em 30x25 metros onde as reduções na frequência cardíaca não foram significativas.

A interação das variáveis tempo e espaço, onde o aumento do espaço é proporcional ao aumento do nº jogadores, mantendo-se desta forma a área relativa por jogador, parece indicar-nos uma diminuição da intensidade com o aumento do espaço e nº de jogadores. Por exemplo, Hill-Haas e colaboradores (2009) estudaram a intensidade dos jogos reduzidos com variação do número de jogadores (2x2; 4x4; 6x6) mas mantendo a relação espaço de jogo/jogador, concluindo que a intensidade do exercício é tanto maior quanto menor o nº de jogadores, como foi verificado nos principais indicadores de intensidade, a % da frequência cardíaca máxima, os valores do lactato ou a perceção subjetiva de esforço dos jogadores. 

Outras variáveis que têm sido amplamente estudadas para avaliar a intensidade dos jogos reduzidos são o feedback do treinador durante os exercícios e as condicionantes colocadas no próprio exercício. Analisando o feedback, numerosos estudos indicam-nos que uma atitude ativa do treinador sobre os jogadores, incentivando-os e dando informações contribui para um aumento da intensidade do treino. Um dos estudos que demonstra o referido é o de Rampinini e colaboradores (2007) que analisaram diversas situações de jogo (3x3, 4x4, 5x5, 6x6) com presença de feedback ou sem presença de feedback do treinador e em todas as situações de jogo os indicadores de intensidade (% Frequência Cardíaca Máxima, Lactato, Perceção subjetiva de esforço) foram superiores com a presença de feedback do treinador. Quanto às condicionantes colocadas no exercício que podem influenciar a intensidade, uma das mais estudadas é a presença ou não de GR, isto é exercícios apenas de manutenção de posse de bola ou exercícios com balizas e GR, e os estudos realizados são algo contraditórios, no entanto parece haver uma ligeira tendência para um aumento da intensidade do exercício sem a presença do alvo (baliza) e do GR.

Concluindo, estes dados são muito interessantes, no entanto é necessário referir que os estudos sobre este tema têm procedimentos metodológicos muito diferenciados o que origina alguma variabilidade nos resultados levando por isso a conclusões diferenciadas. O que podemos destacar? 

1 – Aumento da intensidade com feedback do treinador; 

2 – Aumento do espaço e número em simultâneo contribui para um decréscimo da intensidade; 

3 – Aumento do espaço mantendo o nº de atletas resulta num aumento da intensidade do exercício.

Mais do que tudo isto dito que penso ter todo o interesse, a pergunta que faço é a seguinte: É possível treinar resistência, força, velocidade no futebol através de exercícios específicos e contextualizados como os jogos reduzidos? A minha resposta é claramente positiva, desde que controlem criteriosamente a intensidade destes exercícios através dos indicadores referidos acima, para que percebam quais os exercícios que devem ser utilizados tendo em conta o objetivo físico da sessão de treino.

Cláudio Costa